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        Começou há pouco mais de um ano, aproximadamente. Os primeiros casos surgiram no México, em abril de 2009. O surto da doença que ficou inicialmente conhecida como “gripe suína” matou mais de 100 pessoas, mas a estimativa era a de os infectados já passavam de 1.500 em todo o mundo. No inicio não houve alarde e nem pânico, como era de se esperar. Afinal, a doença era “apenas” uma variante do vírus da gripe comum, que causava riscos para um grupo limitado de pessoas e que matava menos do que o próprio vírus da gripe comum. Entretanto, já na época, o Centro para Prevenção e Controle de Desastres dos Estados Unidos já havia avisado que era possível que esse “pequeno e controlado” surto desse origem a uma pandemia. Uma propagação da doença em escala global. O aviso não foi levado muito em conta pelas autoridades, mas no balanço que foi publicado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) na manhã de 8 de maio de 2009, o numero de contaminados era de 2.384 e o numero de mortes subira para 42. E essa informação ainda nem incluía o aumento de casos na América do Norte, América Latina e Europa.

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Matéria exibida no jornal da Globo sobre a Gripe Suína

        Logo trataram de rebatizar a gripe. Chamaram-na de "Influenza A" (H1N1), temendo a queda vertiginosa da comercialização da carne suína, apesar das insistentes campanhas que visavam disseminar a informação de que a gripe não era transmitida pelo consumo da carne de porco. Os sintomas iniciais eram semelhantes aos da gripe comum e geralmente passavam despercebidos; Febre repentina, fadiga, dores pelo corpo, tosse, coriza, dores de garganta e dificuldade respiratória. 
       
        Já pela metade de julho, antes do São João, com o aumento exponencial dos casos, era comum ver pessoas com mascaras de papel grudadas ao rosto, andando pelas ruas movimentadas. Campanhas educativas ensinavam que hábitos comuns de higiene, como lavar as mãos, usar lenços descartáveis ao tossir ou espirrar e evitar aglomerações ou ambientes fechados ajudava a prevenir a contaminação pelo vírus. A doença atravessou as fronteiras éticas e morais e até mesmo algumas organizações religiosas orientavam seus fieis a evitar abraços, apertos de mão ou qualquer outro tipo de contato físico, afim de evitar a propagação do vírus.


Campanha de prevenção contra o Vírus Influenza A (H1N1)

        Nesse estágio intermediário da doença os grupos de risco foram os que mais sofreram. Gestantes, idosos com mais de 65 anos, crianças menores de 2 anos, doentes crônicos, asmáticos, pessoas com problemas cardiovasculares, portadores de doenças obstrutivas crônicas, com problemas hepáticos e renais, doenças metabólicas, obesos e pessoas com doenças que afetam o sistema imunológico. Foram eles os primeiros a sucumbir e também foram neles que surgiram os primeiros estágios da nova fase da doença, que disseminaria praticamente toda a população mundial.

        Antes mesmo que os pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz terminassem o mapeamento genético dos primeiros vírus Influenza A (H1N1) no Brasil, a primeira morte pelo vírus mutacionado foi registrada. Um garoto de oito anos, numa cidade do interior goiano chamada Santa Clara. No inicio pensaram que era raiva. O paciente apresentava todos os sintomas característicos da doença; Náuseas, vômitos, mal estar moderado, espasmos musculares intensos da faringe e laringe. Porém, o quadro do menino não se desenvolveu como se desenvolveria se fosse raiva. Após aproximadamente dois meses de um tratamento intensivo e desgastante houve uma melhora gradual em seu quadro de saúde. O garoto chegou a recuperar os movimentos dos braços que haviam sido perdidos em uma fase intermediaria da doença e a capacidade de comunicação fora quase que plenamente restabelecida. Teria sido o segundo caso constatado no Brasil de um paciente que conseguiu sobreviver à raiva, o quarto no mundo. Entretanto, uma semana depois o garoto veio a óbito. A autopsia não revelou resultado conclusivo algum sobre o motivo da morte, apenas instigou ainda mais a curiosidade dos pesquisadores que descobririam resquícios de uma variante do vírus Influenza A no corpo. A nova variante do vírus mostrou-se bem mais “agressiva” do que o seu antecessor e com uma incrível facilidade de propagação. As autoridades responsáveis deram o sinal de alerta. A casa do garoto, assim como todos os lugares que ele visitara durante o período em que permanecera doente, foram isolados. Em meados de outubro o vírus já havia se espalhado e feito novas vitimas. No inicio de novembro o numero de mortes já passava de 150. Cientistas do mundo inteiro tentaram isolar o vírus, evitar a propagação em massa. Usavam trajes de contenção para examinar os “infectados”. Leitos de hospitais, salas escolares e outras repartições publicas foram transformadas em unidade de terapia intensiva. Um regime de quarentena foi implantado e ninguém entrava ou saia da cidade. Muitos relembraram o acidente com o césio 137, em setembro de 1987, mas no fundo a maioria sabia que o que teríamos de enfrentar futuramente seria algo bem pior, de proporções catastroficamente maiores.


Quarentena no Centro de Cultura e Convenções de Goiânia

        Uma repórter de cabelos curtos, negros e lisos, com o rosto excessivamente maquiado, deu a noticia em um plantão extraordinário do jornal Anhanguera. Mais de cinquenta túmulos haviam sido violados e no lugar onde deveriam repousar seus corpos encontraram apenas caixões vazios, recobertos pela poeira do parque memorial de Goiânia. Um inquérito fora instaurado para se descobrir os responsáveis por tal afronta aos mortos. Em pouco mais de duas semanas já não havia mais repórteres trabalhando. A papelada do inquérito fora deixada de lado, diante do problema maior. A cidade estava destruída e a onda de pânico se alastrava pelo mundo. Os mortos estavam voltando à vida, seguindo a premissa básica de sobrevivência. Buscando alimento e matando.

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